Dia de S. Martinho

Este é a altura do ano em que se prova o vinho novo. Para alguém como eu, que sempre viveu na cidade, o que sei resulta das histórias que ouvi e das tradições que a minha avó me ensinava, ela sim, nascida e criada em Trás-os-Montes. Este era o dia de comer castanhas, carne assada no forno e, para quem já tinha idade suficiente, beber jeropiga e vinho novo. Durante o jantar, como era hábito, conversava-se acerca de tudo e de nada, mas neste dia, normalmente contava-se a lenda do Santo, S. Martinho, soldado que numa noite fria, ao cruzar-se com alguém sem resguardo, cortou a sua capa ao meio, com a sua espada e sem hesitação, porque devemos sempre repartir os bens que temos. Por isso, enquanto o descascar castanhas nos dava uma boa desculpa para passarmos mais tempo juntos ao redor da mesa de jantar, conversava-se acerca do exemplo deste soldado sem gestos grandiosos ou palavras grandes e difíceis. Hoje fazem-me cada vez mais falta essas conversas onde as palavras fluiam, a empatia era estimulada e a vida era compartilhada, em familia.


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Throwback Thursday – Arrelias

Que eu gosto de piqueniques é dado adquirido. E que, possivelmente eu seria a única pessoa lá em casa que gostava mutito de dias de piquenique também. Talvez fizéssemos um por ano (tanto quanto ir à Feira Popular) e só por minha causa. O lema lá de casa era: “de vez em quando, fazemos coisas que podemos não gostar para deixar os outros felizes” e assim todos tinhamos oportunidade de termos um dia em que nos sentiamos importantes. Porque se alguém faz algo só para nos dar prazer sentimo-nos muito importantes! Sentimos-nos parte do mundo, ou pelo menos, sentimo-nos parte do mundo de alguém , não é? E sabemos que somos “grandes” o suficiente para sermos amados com intensidade.

Talvez por estar habituada a não magoar quem se gosta, aquele gesto de provocação levou a uma reacção tão extrema, talvez por não entender a razão que estaria por detrás daquelas palavras, fiquei tão fora de mim que me levou a prejudicar quem eu queria defender. No final aprendi a lição, que nada é tão importante a ponto de nos tirar a nossa serenidade interior, nada deve ser tão importante a ponto de nos levar a perder a noção do que nos rodeia e a magoar quem não merece, nada é tão negativo que nos impeça de saber quando nos devemos afastar para procurar uma solução com calma.

Lembro-me que foi um dia perfeito que pode ter sido só na realidade uma tarde, a memória tem destas coisas em que o tempo perde importância e só ficam os sentidos, os sentimentos, as sensações.

Tinhamos comido, conversado, rido muito, brincado e eu fiquei com sono e com aquela vontade de me deitar e descansar um pouco. Numa das mantas estava eu e a minha avó e a nossa amiga Mimi começou a brincar comigo a dizer que se iria deitar na manta. Claro que não achei graça nenhuma (já referi que estava com sono?) e comecei a refilar que “ao pé da minha Vóvó fico eu!”

Quanto mais eu refilava, mais a Mimi brincava, pondo um dedo mais próximo da minha avó e mais eu me mexia para não lhe deixar espaço, empurrando, sem querer a minha avó para fora da manta, tendo ficado só com espaço sentar. Ao som de “Mimi não” e com o embalar dos movimentos, adormeci atravassada. Sei que depois me arranjaram (não sem antes tirarem esta fotografia) e claro que descansámos todos um pouco antes de regressar a casa. Ninguém ficou zangado com ninguém, continuámos amigos e esta foi uma história que, mais tarde nos fazia sorrir. Porém, a frase “Mimi não”, ainda hoje me acompanha e quando me encontro em situações em que estou a ser levada ao limite, lembro- me que mais vale parar para pensar e encontrar uma solução, do que “adormecer” a razão e “acordar” para uma realidade em que a minha opinião não foi tida em conta.

Páscoa

Todos à volta da mesa, em conversas cruzadas, risos, alegria e muita comida! Como na nossa familia sempre houve pessoas de diferentes partes de Portugal, misturávamos todas as bonitas tradições. Assim tinhamos folar doce, folar com carnes, bolos de amêndoa, ninhos da Páscoa, amêndoas de toda a forma e feitio (e sim as de licor também!). Mas a festa começava antes, durante a preparação do Domingo: as compras, as decisões do que seria o almoço de Páscoa, sem nunca se pensar muito em quem viria, porque se contava que todos iriam passar por lá mais cedo ou mais tarde.

Agora, mais distante no espaço e no tempo as tradições mantêm-se: diversidade em casa e na mesa.

Reduzir a Páscoa a uma mesa farta de comida seria uma injustiça; espiritualmente, embora em conjunto, sempre foi um periodo muito pessoal. Talvez por isso esta festa sempre foi tão importante para mim, talvez por isso o Domingo de Páscoa fosse sempre um Domingo tão especial, a festa, a alegria, a comida deliciosa eram o culminar de um periodo de introspeção intenso.

E pensando bem, talvez por isso eu goste tanto de celebrar o Carnaval…

Feliz Dia do Pai, Papá!

 

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Hoje celebra-se o dia de S. José e em Portugal é o Dia do Pai.

Pai dá Amor, ensina, dá  o exemplo, educa, respeita e faz-se respeitar, perdoa o imperdoável, mas não desculpa. Mas Papá é ser mais do que Pai, aprendi isso com ele.  Ser Papá é ter paciência para dar um beijinho quando nos magoamos ou com um ligeiro sopro diminuir o ardor da água oxigenada nas feridas. É enxugar as nossas lágrimas e, por vezes, chorar connosco. É fazer notas de faz-de-conta, para, a brincar, nos ensinar a sério o valor do dinheiro. É ler histórias quando estamos doentes e contar histórias da sua vida ao serão. Ser Papá é ter longas conversas acerca de nada e de tudo. Ser Papá é ir connosco à procura de uma amoreira para os nossos bichos-da-seda ou ajudar-nos a acolher em casa o gatinho sem família…

Porque tive um Papá, gostei sempre de celebrar este dia. Não porque durante todos os outros dias do ano ele não fosse importante, mas porque era mais um dia em que podia fazê-lo sentir-se especial. Verdade é que se durante todos os outros dias não houvesse Amor entre nós, nada tornaria este dia feliz, mas porque havia um Amor muito forte a unir-nos, neste dia podia dar-lhe a prenda mais tonta que seria  sempre motivo de sorrisos na alma, que são muito mais marcantes que os do rosto.

E porque são as celebrações de momentos bons que tornam a Vida especial: Feliz Dia do Pai!

 

LOVE LETTER

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 Fotografia de Carla Baptista

Quero um homem a quem eu ame e que me ame. A quem eu me possa entregar de corpo e alma. Que seja o meu companheiro, o meu amigo. Em quem eu tenha completa confiança. Que goste de estar comigo. Que me respeite como pessoa inteligente que sou. Que acredite na minha palavra e que ouça o que digo. Que respeite os meus pedidos e quando, eles forem absurdos ou não possam ser atendidos, me diga. Que converse comigo. Que me dê mimos. Que me faca sorrir e sorria quando pensa em mim. Que saiba como me acalmar e me console quando estou triste com o mundo. Que me saiba dar as más noticias, quando for necessário. Que saiba que boas pessoas podem cometer más acções e por isso me dê o seu perdão quando eu o magoar. Que esteja do meu lado a segurar a minha mão ou a abraçar-me quando eu precisar, mas fôr demasiado orgulhosa para o pedir. Que não se importe de o fazer quando eu pedir. Que confie em mim. Que acredite em mim e nas minhas decisões. Que seja paciente comigo. Que me ponha na sua lista de top5. Que cante comigo as canções de Natal. Que me mande cartões com frases lamechas só porque se lembrou de mim. Que me faça acreditar que sou a mulher mais feliz do mundo porque o tenho a meu lado. Que goste de partilhar comigo os seus conhecimentos. Que goste que eu partilhe com ele os meus. Que marque de alguma maneira as datas importantes do calendário porque sabe que isso me deixa feliz. Que saiba que são as pequenas coisas que são importantes. Quero a meu lado um homem que me ame com todos os meus defeitos e qualidades. Que se preocupe comigo e que me deixe preocupar-me com ele. Que me acorde suavemente. Que perceba o que é importante para mim e que entenda o quanto eu o amo quando desisto dessas coisas por ele. Que saiba que está na minha lista top5. Que respeite a Vida e por isso tenha prazer em torná-la mais suave aos outros, porque a Vida já é em si demasiado dura. Que respeite os outros. Que seja inteligente. Que goste de viajar porque lhe dá oportunidade de conhecer novas gentes, novas culturas, novos modos de vida. Que respeite os outros, nas suas diferenças. Que goste de Sol e de Mar. Que saiba sorrir e que goste de rir. E de cantar. Que se ria das minhas histórias, anedotas ou graças. Que entenda que as lágrimas são a forma de limpeza da alma e não fique assustado com elas. Que saiba a ternura contida num abraço e a força transmitida num beijo. Que conheça o enorme valor que tem e por isso percebe que estou com ele porque o amo e não porque não tive outra escolha. Que saiba que o mundo não é só preto e branco, há mais cores, entre as quais o cinzento. Que não se importe de me lembrar disso de vez em quando.

Quando nos encontrarmos, reconhecer-nos-emos pelo olhar… E teremos a eternidade!