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O Galo da Cidade

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O Galo morava num jardim no meio da cidade.

“Este é o lugar mais bonito do mundo!”, dizia o Galo todos os dias de manhã quando acordava. E ficava tão contente por morar naquele jardim que começava a cantar para alegrar as vidas dos que passavam por ele.

Era, sem dúvida, um lindo jardim. Tinha umas árvores frondosas que davam sombra a quem gostava de parar para admirar o lago que ocupava o centro do jardim. Havia flores nos canteiros, pombos, pavões e cisnes a passearem-se pelos caminhos e, claro, havia o Galo que encantava com o seu porte altivo, com as suas penas coloridas e brilhantes e cacarejar melodioso. Este nosso amigo tinha uma outra particularidade que todos admiravam: sabia atravessar a estrada que circundava o parque! Para os humanos era um mistério o facto do Galo saber exactamente o que fazer, para os outros animais que viviam no jardim era uma alegria poderem contar com a sabedoria do Galo.

Tinha aprendido a seguir as regras de trânsito, primeiro por imitação, depois por graça e agora fazia-o porque gostava de fazer tudo com segurança.

Lembrava-se ainda da primeira vez que decidira atravessar a estrada: via as pessoas passarem pelo jardim e seguirem em frente, atravessarem a estrada e desaparecerem. Ficava sempre a imaginar para onde iriam. Que lugar seria aquele para onde todos se dirigiam? Um dia decidiu ir também e avançou sozinho, em frente, decidido, como vira fazer a tanta gente. De repente ouviu um som agudo, seguido de um som mais forte, travões a chiarem, gritos, buzina, o cheiro da borracha queimada das rodas, virou a cabeça e viu o pára-choques de um carro parado em frente ao seu bico! O susto foi tão grande que ele mal se lembra de como chegou a salvo ao outro lado da estrada, talvez tenha conseguido esboçar um pequeno voo, talvez tenha corrido, sabe-se lá! O Galo só se lembra de ter perdido a vontade de explorar o desconhecido e de, depois de se ter acalmado, não saber como fazer para regressar a sua casa, do lado lá da estrada. Respirou fundo muitas vezes, pensou, pensou e encontrou a solução: “Vou esperar que alguém atravesse e eu atravesso também!”. Ainda teve que esperar algum tempo ate chegar alguém que fosse na direcçao do jardim. Mas mal surgiu a oportunidade, colocou-se ao lado da pessoa e quando deu por isso estava de volta a casa. Ao contar a sua aventura, só  ouvia dizer: “O Galo sabe atravessar a rua!”, “O Galo sabe atravessar a rua!”, ninguém conseguia esconder o seu espanto. E ele, vaidoso, decidiu, no dia seguinte, repetir a proeza. Mas desta vez iria ver muito atentamente,  como faziam as pessoas. E lá foi ele!  Percebeu que devia olhar para um lado e para outro antes de atravessar a rua, deveria esperar até não ver carro nenhum, passar sempre sobre as riscas brancas, passadeira, porque os carros iriam parar e percebeu que quando havia uma luz verde virada para ele, poderia atravessar sem perigo.

Este Galo era sem dúvida muito inteligente! Gostava de observar o que se passava a sua volta e aprendia com os seus erros. “O importante não é não cometer erros, o importante é encontrar a maneira certa de fazer as coisas e continuar a faze-las até alcançar a perfeição (ou quase).”, dizia o Galo a quem o queria ouvir.

O Pombo que queria ser Guia Turístico

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Fotografia de Carla Baptista

O Pombo gostava de olhar para baixo e ver toda aquela azáfama da cidade. As pessoas pareciam sempre estar a correr para algum lado, devia ser muito triste não ter tempo para admirar o sol, as flores, os jardins por onde passavam. Não trocaria nunca aquela carícia do vento por nada deste mundo! Bem, na verdade havia uma coisa que ele ambicionava: ser Guia Turístico!

Desde muito novo ouvia as descrições dos guias turísticos para quem visitava a cidade: a data das construções, a razão da sua construção, o estilo. Com o decorrer do tempo percebeu que o estilo da construção estava relacionado com a forma do edifício, com a desenho das janelas, e das paredes, com o material utilizado e mais: conseguia dizer-se a data da construção e, por vezes, ate quem era o arquitecto! Imagine-se lá o que um monte de pedras poderia contar!

Depois havia sempre a cidade. Os sítios mais bonitos, os lugares históricos (que contavam o que se tinha passado na cidade através dos tempos). O roteiro gastronómico (que mais não era do que os restaurantes onde se comia melhor!), enfim, tantas coisas bonitas e interessantes para quem conhecia! E se ele já conhecia a cidade! Todos os barulhos, o movimento da cidade, por vezes até se convencia que conhecia algumas pessoas, como aquele motorista que todas as madrugadas lhe dava os bons-dias, enquanto deixava cair algumas migalhas do seu pão da manhã. Á tarde poderia encontrá-lo numa esplanada a tomar um café enquanto comia o seu bolo, que iria repartir com todos os pombos que estivessem por perto.

A cada dia aumentava a sua vontade de mostrar a cidade a quem a visitava, a cada dia aumentava a sua vontade de ser guia turístico! “E porque não?”, pensou para consigo. Decidiu meter asas ao caminho e foi saber o que precisava fazer para se tornar naquilo que sempre sonhara ser.

Descobriu que era preciso estudar. A principio, pareceu-lhe uma patetice, afinal ele sabia tanto acerca da sua cidade! Para quê aprender mais?! Mas, pelo sim, pelo não, lá foi espreitar as aulas. E gostou! E viu que apesar de saber muito, ainda havia muita coisa que ele não sabia, muita coisa para aprender. E, como era pombo, não podia inscrever-se na escola, mas podia ir a todas as aulas porque ficaria na janela a ouvir os professores.

Quando terminou o seu curso, todos os alunos já o conheciam e havia quem deixasse a janela entreaberta para que ele ouvisse melhor. Até os professores achavam interessante aquele pombo e o davam como exemplo de como se pode sonhar alto e concretizar esse sonho, se tivermos força de vontade, se tivermos coragem para trabalhar por aquilo que queremos.

Agora, na cidade há um novo guia turístico: o Pombo! E como ele gosta do seu trabalho, põe o seu coração naquilo que faz e quem o escuta, ouve as melhores historias acerca da cidade, conhece os melhores miradouros, visita os locais mais bonitos e interessantes.

Quanto ao Pombo voa alegremente sobre a sua cidade e anseia conhecer novos sítios, como visitante. E sente-se tão feliz que às vezes canta enquanto voa, porque sabe que conseguiu alcançar os seus sonhos, porque sabe que o trabalho árduo é sempre recompensado. E continuar a trabalhar para conseguir resultados é melhor do que desistir à primeira dificuldade! Sabe que porque trabalhou, voa agora mais alto do que os seus amigos pombos.

Voa Pombo! Encanta-te com a tua cidade!

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